O que é gentrificação?

Depois de anos deixado ao léu pela prefeitura, o seu bairro, finalmente, tem avenidas asfaltadas. Ao mesmo tempo, o velho problema da queda de energia elétrica durante as chuvas foi resolvido. Novos mercados, restaurantes, bares e hamburguerias abrem a quase dois quarteirões da sua casa. No entanto, você percebe algo diferente. Os seus vizinhos já não são mais os mesmos.

Eles estão diferentes, vestem outras roupas, dirigem outros veículos e não reconhecem você. Ao mesmo tempo, você descobre que a mudança foi além do esperado: a bonança não é de graça. Há um custo a ser pago pela valorização do bairro, e o preço subiu para uma quantidade quase irreal. No final, não lhe resta outra alternativa que não seja fazer as malas e mudar de bairro.

A descrição acima é o que acontece durante o processo de gentrificação. Geralmente, os moradores mais velhos do bairro são trocados por outros com maior poder aquisitivo. O tema despertou interesse nacional durante a época da Copa do Mundo, quando os preços dos imóveis atingiram a estratosfera e o assunto sempre volta à tona quando o perfil do bairro muda drasticamente. Afinal, este aburguesamento é um processo prejudicial ou o valoriza?

Gentrificação à brasileira

A palavra gentrificação deriva de uma palavra que nasceu há quase tanto tempo que a noção contemporânea de urbanismo. Por volta do século XIV, a palavra genterise era usada no francês arcaico para classificar qualquer pessoa nascida em berço de ouro. Daquela expressão francesa, a socióloga inglesa Ruth Glass cunhou o termo gentrificação, em 1964, ao analisar o mercado imobiliário londrino. Em português, a tradução aproximada seria algo como “enobrecimento”.

Historicamente, a gentrificação brasileira aconteceu em São Paulo, Recife e Rio de Janeiro, sobretudo nas regiões centrais, embora cidades como Fortaleza e Vitória também estejam experimentando este fenômeno. O bairro Vidigal, no Rio, é um exemplo do aburguesamento contemporâneo. Até então visto como uma comunidade carente de infraestrutura, embora tendo a praia de Ipanema como paisagem no quintal, a área despertou o interesse de investidores estrangeiros e brasileiros, que pagam centenas de mil reais em troca de uma casa de 1 quarto.

vidigal

O resultado é o aumento do valor do metro quadrado. Há, em paralelo, uma substituição dos moradores tradicionais do bairro por outros mais ricos. O desafio, segundo os novos moradores, é manter o equilíbrio entre quem já vivia no Vidigal e quem tornará a bela região como sua nova moradia. Ainda é cedo para apontar a totalidade da transformação, já que o processo ainda está em curso. No entanto, pode acontecer que a nova identidade do Vidigal seja bem diferente: mais cara e inacessível.

A gentrificação é um processo negativo ou positivo?

É a resposta que muitos urbanistas procuram dar à sociedade. Não é difícil encontrar quem defenda o seu pensamento de maneira apaixonada. O tema costuma desperta fortes emoções, afinal, ele toca na eterna luta entre pobre e ricos. Os defensores da gentrificação costumam usar, entre dezenas de argumentos, que a revitalização e desenvolvimento tem seu preço. O comércio local recém-aberto só funcionará com clientes consumindo. As novas construções só serão levantadas com compradores. É preciso de uma participação local que consiga pagar o novo preço.

Do outro lado, os moradores acusam a gentrificação de expulsar os moradores e substituí-los por outros sem qualquer vínculo. Tudo em nome do dinheiro, claro. Como acontece nos estádios de futebol brasileiros, hoje chamados de arenas. Os velhos templos do futebol estão mais modernos e trocaram a bancada de concreto por assentos de plásticos. Imediatamente os preços dos ingressos aumentaram, causando o afastamento da torcida com menor poder aquisitivo. Para desenrolar o assunto e melhorar os argumentos, há sites que exploram o assunto além do senso comum.

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O blog Caos Planejado considera que o problema da gentrificação está quando os bairros ricos não abrem suas ruas para novas construções, empurrando os lançamentos para outras regiões e levando consigo moradores de maior poder aquisitivo. A jornalista Sabrina Duran fez uma série de reportagens sobre o assunto depois que ela própria sofreu os efeitos inesperados da gentrificação – de forma inesperada, e na esteira da valorização do centro de São Paulo, o preço do aluguel dela, no Copan, dobrou de valor. Foi o alarme para escrever sobre o tema.

Não há, no entanto, uma resposta absoluta sobre um problema complexo. Urbanistas, construtoras e associações de moradores continuam discutindo os efeitos positivos e negativos da gentrificação. O que ninguém discorda é que todo cidadão tem o direito de viver no local onde construiu sua residência, família e identidade sem serem forçados a abandonarem a região porque o perfil sócio-econômico mudou.